terça-feira, 30 de junho de 2026

Resenha – A Regra do Jogo, de Rafael Azevedo

Toda escolha produz efeitos. Algumas consequências aparecem imediatamente; outras atravessam o tempo e moldam silenciosamente a forma como pensamos, nos relacionamos e construímos nossa história. Sob essa perspectiva, refletir sobre princípios de vida não significa apenas discutir moralidade, mas compreender os caminhos pelos quais nossas decisões participam da formação do caráter e da organização da própria existência.

É nesse horizonte que se insere A Regra do Jogo, de Rafael Azevedo. Utilizando o universo do futebol como metáfora da existência, o autor apresenta vinte e cinco princípios que dialogam com disciplina, perseverança, responsabilidade, relacionamentos, sabedoria, espiritualidade e propósito. A linguagem é acessível e as imagens construídas ao longo da narrativa tornam a leitura leve, sem abrir mão da profundidade.

Embora organizados sob o nome de "regras", esses princípios não são apresentados como mecanismos de controle, mas como convites à reflexão. A proposta da obra não consiste em estabelecer uma relação de culpa com o leitor, e sim em estimulá-lo a examinar sua própria caminhada à luz da fé cristã, reconhecendo que toda transformação exige disposição para rever escolhas, aprender e perseverar.

Um dos aspectos que mais enriquecem a leitura é sua estrutura. Ao final de cada capítulo, o autor propõe um exercício de aplicação prática e uma oração relacionada ao tema desenvolvido. Esse recurso amplia a experiência do leitor, permitindo que o conteúdo ultrapasse o campo da compreensão intelectual e encontre espaço na vivência cotidiana. A leitura deixa de ser apenas informativa para tornar-se também um exercício de interioridade.

Entre os diversos capítulos, O Apito Final merece destaque. Utilizando o encerramento de uma partida como metáfora da finitude humana, Rafael Azevedo convida o leitor a refletir sobre o tempo, o legado e a responsabilidade pelas próprias escolhas. O texto recorda que nenhuma estratégia pode ser alterada após o encerramento do jogo, conduzindo naturalmente à consciência de que cada dia representa uma oportunidade de construir a história que desejamos deixar.

Ao longo da obra, percebe-se uma preocupação constante em aproximar valores espirituais da vida prática. Questões como disciplina, domínio próprio, responsabilidade, perseverança, relacionamentos saudáveis, trabalho diligente e administração da própria vida são apresentadas como princípios que ultrapassam o discurso religioso e encontram expressão concreta no cotidiano.

Mais do que reunir orientações para uma vida cristã, A Regra do Jogo propõe uma reflexão sobre responsabilidade pessoal. Em uma sociedade frequentemente marcada pela busca de resultados imediatos, a obra recorda que o caráter não é formado em grandes acontecimentos isolados, mas nas pequenas decisões repetidas diariamente. Essa talvez seja sua principal contribuição: lembrar que compreender uma verdade é importante, mas é a disposição para vivê-la que efetivamente transforma uma trajetória.

Ao concluir a leitura, permanece a impressão de que o verdadeiro jogo não acontece apenas nos grandes momentos da vida, mas sobretudo nas escolhas discretas, feitas quando ninguém está olhando. É nesse campo silencioso que princípios deixam de ser conceitos e passam a se tornar modo de viver.


quinta-feira, 18 de junho de 2026

O Caminho Oculto da Construção

Hoje acordei cedo e não segui a rotina que gostaria. Enquanto organizava algumas ideias, percebi algo que talvez esteja presente na vida de todos nós e que, até então, eu nunca havia conseguido colocar em palavras.

Como estudiosa da mente e da saúde mental, valorizo profundamente aquilo que aprendemos ao observar a nós mesmos. Muitas vezes buscamos respostas em teorias, conceitos e explicações complexas. Outras vezes, porém, a vida nos conduz a lugares que a teoria, sozinha, não alcança.

Foi em um desses momentos que percebi algo que mudou a forma como observo os processos humanos. Não sei se o ser humano já observou que sua vida caminha em duas linhas paralelas. Uma delas é a linha da repetição: os padrões, escolhas, crenças e comportamentos que reproduzimos a partir da nossa história. A outra é a linha da construção: os recursos internos, os aprendizados, os vínculos saudáveis e as formas de autocuidado que desenvolvemos ao longo da vida. Durante muito tempo, acreditei que esses caminhos aconteciam separadamente. Hoje percebo que caminham juntos.

Foi justamente a ampliação da clínica que me permitiu enxergar isso. Todos nós, sem exceção, repetimos padrões familiares. Isso não é uma condenação. É constituição. É história. É linguagem. É a forma como nos organizamos subjetivamente a partir dos vínculos que nos trouxeram até aqui. Mas existe algo que diferencia aqueles que conseguem transcender determinados padrões: a capacidade de repetir, desconstruir e construir ao mesmo tempo.

No início, esse processo é quase invisível. As informações chegam misturadas às experiências. As rupturas acontecem enquanto ainda estamos tentando entender quem somos. Muitas vezes acreditamos que estamos apenas repetindo os mesmos erros, quando, silenciosamente, já estamos construindo recursos para sair deles. Foi aí que percebi algo que nunca havia colocado em palavras: enquanto uma parte de nós repete aquilo que aprendeu, outra já está construindo aquilo que um dia permitirá transcender a repetição.

Esses dois movimentos acontecem simultaneamente. Enquanto uma sustenta a dinâmica conhecida, outra começa a esvaziar silenciosamente aquilo que já não faz sentido. Enquanto uma repete, outra aprende. Enquanto uma sofre, outra observa. Enquanto uma se apega ao que conhece, outra prepara o terreno para aquilo que ainda não conhece.

Talvez por isso a transformação humana seja tão difícil de perceber quando estamos vivendo o processo. O olhar costuma ficar preso ao sintoma, ao conflito ou à repetição. Poucas vezes observamos aquilo que está sendo construído paralelamente. E é justamente nesse ponto que a vida me parece extraordinária. Não esperamos estar curados para começar a viver. Vivemos enquanto aprendemos. Construímos enquanto desconstruímos. Amadurecemos enquanto ainda carregamos partes infantis buscando respostas.

Talvez seja por isso que algumas pessoas consigam olhar para trás e perceber que, mesmo nos períodos mais difíceis, algo importante estava sendo cultivado. Percebo que esse movimento costuma aparecer nas pequenas ações de autocuidado que desenvolvemos para sobreviver. É justamente nos terrenos mais áridos da nossa história — aqueles que muitas vezes gostaríamos de apagar — que também se encontra a possibilidade de reconhecer aquilo que fomos capazes de construir.

Vou dar um exemplo. Aprender artes marciais, manusear arma de fogo ou arma branca tinha, para mim, relação direta com aprender a me defender. Mas defender de quê? De quem? Por quê?

Com o tempo, percebi que a mesma parte de mim que carregava o medo começou a construir outra coisa: disciplina, responsabilidade e segurança. Aquilo que nasceu da necessidade de proteção transformou-se em uma forma de autocuidado. Por um lado, existia o domínio adquirido pela necessidade. Por outro, surgia a paz construída pelo cuidado. O conhecimento permaneceu, mas deixou de ocupar o centro da minha existência.

E talvez seja exatamente isso que aconteça em tantos aspectos da vida. O que começou como sobrevivência pode, com o tempo, transformar-se em sabedoria. O que começou como defesa pode transformar-se em discernimento. O que começou como dor pode transformar-se em serviço.

A neurociência talvez explique esse fenômeno através dos sistemas simpático e parassimpático. A psicologia poderia falar sobre sombra e integração. A psicanálise encontraria outras palavras para descrever a dinâmica entre sujeito, desejo e alteridade.

Eu, hoje, escolho chamá-la de capacidade de observação fora do centro. A capacidade de olhar para a própria história sem estar aprisionado nela. A capacidade de perceber não apenas aquilo que nos feriu, mas também aquilo que construímos enquanto tentávamos sobreviver.

Porque talvez a maior descoberta não seja perceber onde repetimos. Talvez a maior descoberta seja perceber que, enquanto repetíamos, também estávamos construindo. Não esperamos estar curados para começar a viver. Vivemos enquanto aprendemos.

E que, muitas vezes, a porta da prisão já estava aberta há anos. Apenas ainda não tínhamos percebido o quanto já havíamos caminhado para longe dela, construindo silenciosamente um caminho que, em algum momento, se tornará maior do que a própria repetição.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

A garota em Entre Quatro Paredes: uma leitura psicanalítica



No filme Entre Quatro Paredes, a personagem da garota não se limita a um papel narrativo secundário; ela se constitui como um verdadeiro eixo psíquico da história. É nela que o enredo ganha densidade clínica, pois sua presença não se define apenas pelo que é dito ou mostrado, mas sobretudo pelo que é sustentado em silêncio. A garota encarna o ponto onde o trauma familiar se deposita, se organiza e, potencialmente, pode ser transformado.

Dentro da economia psíquica dessa família, ela ocupa o lugar de porta-sintoma. Aquilo que não pôde ser simbolizado pelos pais — especialmente a violência, o medo e o desamparo — encontra nela uma via de expressão. Inspirados nas formulações de René Kaës, podemos compreender que a garota carrega conteúdos psíquicos que não são exclusivamente seus, mas que pertencem ao grupo familiar e foram transmitidos sem elaboração. Essa transmissão se manifesta em sua forma de estar no mundo: uma hipervigilância constante, uma leitura aguçada — por vezes excessiva — do ambiente emocional e uma dificuldade persistente em confiar nos vínculos. Trata-se de uma subjetividade organizada em torno da sobrevivência, onde sentir é perigoso, mas não sentir é impossível, criando uma tensão contínua entre presença e retraimento.

Um dos aspectos mais delicados dessa construção psíquica é a possibilidade de uma identificação cindida. A garota pode, simultaneamente, identificar-se com a mãe — na dor, na impotência e na posição de vulnerabilidade — e com o pai — na agressividade, no controle e nas formas defensivas de lidar com o mundo. Esse fenômeno, discutido por Sándor Ferenczi em suas reflexões sobre o trauma, não representa uma escolha consciente, mas uma estratégia psíquica de sobrevivência. Ao incorporar aspectos do agressor, a criança encontra uma maneira de não ser completamente devastada por ele. No entanto, essa cisão interna tende a produzir efeitos duradouros, interferindo na construção da identidade, nos vínculos afetivos e na forma como ela lidará com conflitos ao longo da vida.

Quando a simbolização falha, o corpo frequentemente assume o lugar da linguagem. A garota expressa, por meio de gestos, silêncios e reações aparentemente desproporcionais, aquilo que não consegue nomear. Nesse ponto, as contribuições de Donald Winnicott são fundamentais para compreender que a falha ambiental compromete a continuidade do ser. Em um ambiente marcado pela instabilidade e pela violência, a criança não encontra condições para desenvolver sua espontaneidade. Em vez disso, adapta-se, muitas vezes constituindo um falso self — uma organização psíquica voltada para a sobrevivência, mas que implica um distanciamento progressivo de sua experiência autêntica.

A entrada de um novo parceiro na vida da mãe e o contato com uma configuração familiar diferente introduzem um elemento de ruptura, mas também de profundo estranhamento. Para a garota, o novo não é necessariamente sinônimo de segurança. Pelo contrário, pode ser vivido como instabilidade ou ameaça, uma vez que seu referencial interno foi estruturado no caos. O que é previsível, ainda que doloroso, tende a ser mais reconhecível do que aquilo que se apresenta como desconhecido. Nesse contexto, ela pode reagir rejeitando vínculos potencialmente saudáveis ou testando-os de maneira constante, como se buscasse confirmar a inevitabilidade da falha.

A posição subjetiva da garota a coloca em uma encruzilhada psíquica decisiva. Ela pode se tornar uma repetidora do trauma, recriando inconscientemente padrões relacionais semelhantes aos que vivenciou, ou pode, caso encontre espaço para elaboração, tornar-se agente de ruptura. Retomando Sigmund Freud, a compulsão à repetição indica que aquilo que não é simbolizado tende a se repetir. No entanto, essa repetição também carrega, paradoxalmente, uma tentativa de elaboração. Quando há possibilidade de escuta, nomeação e reconhecimento do sofrimento, o que antes se repetia de forma silenciosa pode começar a se organizar como narrativa.

Assim, a garota em Entre Quatro Paredes não é apenas uma personagem afetada pela violência, mas uma figura que revela, com precisão, os efeitos profundos da transmissão psíquica do trauma. Ao mesmo tempo, ela aponta para uma possibilidade fundamental: a de que a história, ainda que marcada pela dor, não está completamente determinada. Entre a repetição e a elaboração, existe um espaço — e é nesse espaço que a escuta, a simbolização e o cuidado podem operar como ruptura.

Um detalhe aparentemente simples, mas de grande densidade clínica, aparece quando um dos personagens comenta sobre o “sorriso estranho” da garota em uma fotografia. À primeira vista, a observação pode soar apenas como uma impressão subjetiva, mas, sob uma leitura psicanalítica, ela revela algo mais profundo: um descompasso entre a expressão e a experiência emocional esperada. Não se trata de um sorriso que indica conforto genuíno ou bem-estar consciente, mas de um sorriso que denuncia uma adaptação psíquica a um ambiente traumático. 

A garota não sorri porque se sente segura; ela sorri porque aprendeu, muitas vezes de forma inconsciente, a se ajustar às exigências emocionais daquele contexto. Esse tipo de expressão pode ser compreendido à luz das formulações de Sándor Ferenczi sobre o trauma, nas quais a criança, diante da violência, tende a incorporar aspectos do ambiente — inclusive do agressor — como estratégia de sobrevivência. 

Em diálogo com Donald Winnicott, é possível pensar esse sorriso como manifestação de um falso self: uma organização defensiva que garante a continuidade do vínculo, ainda que ao custo de um afastamento da experiência emocional autêntica. Assim, o que causa estranhamento não é exatamente o sorriso em si, mas o fato de que ele aparece onde, do ponto de vista afetivo, não deveria estar — revelando que o sofrimento, nesse caso, não se apresenta de forma explícita, mas disfarçado em uma adaptação silenciosa e profundamente sofisticada.

A indicação de Entre Quatro Paredes se sustenta menos como um convite ao entretenimento e mais como uma convocação à escuta. Trata-se de um filme que não se encerra nos acontecimentos que apresenta, mas que continua operando no espectador, exigindo elaboração posterior. Ao escolher assisti-lo, não se trata apenas de acompanhar uma história, mas de se permitir atravessar por ela — reconhecendo que, por trás de gestos aparentemente banais, como um silêncio prolongado ou um sorriso deslocado, existem dinâmicas psíquicas complexas que merecem ser nomeadas.

Assim, mais do que recomendar, este é um convite a olhar com mais precisão para aquilo que, muitas vezes, passa despercebido: os sinais sutis da violência, as formas silenciosas de adaptação e, sobretudo, as possibilidades de ruptura que emergem quando há espaço para escuta e simbolização. É nesse ponto que o filme deixa de ser apenas narrativa e se transforma em experiência — uma experiência que, uma vez vista, dificilmente se esquece.

quinta-feira, 26 de março de 2026

Anestesia Coletiva?

Como a normalização da violência e a sobrecarga de informação estão nos afastando da nossa própria humanidade

Abrir qualquer meio de comunicação hoje em dia tem me provocado um profundo desânimo.

Atuo diretamente no enfrentamento à violência contra a mulher e o que vejo não é apenas alarmante — é desestruturante. Existe uma violência crescente, uma omissão gritante e um abismo entre os números apresentados e a realidade vivida. Sabemos que as estatísticas não dão conta do cenário real, porque muitas mulheres sequer conseguem denunciar. O silêncio ainda é um dos maiores cúmplices da violência.

Mas há algo além dos números que me inquieta profundamente: sinto que estamos atravessando um colapso nas referências do masculino e do feminino, como se a própria estrutura social estivesse em processo de desorganização.

De um lado, movimentos como os chamados redpill operam a partir de ressentimento e hostilidade contra mulheres. De outro, observo distorções dentro do próprio movimento feminista, onde, em alguns espaços, a radicalização perde o eixo e enfraquece a essência da luta. No meio disso tudo, o que se instala é um ruído ensurdecedor — e, paradoxalmente, um silenciamento brutal do essencial.

É inconcebível que mulheres precisem andar armadas com spray de pimenta, canivetes ou armas de choque para garantir o mínimo de segurança — e ainda assim, muitas, inclusive treinadas, continuam sendo mortas por armas de fogo.

É devastador assistir a casos em que homens ferem ou matam crianças como forma de atingir mulheres. Isso não é apenas violência. É um colapso ético. Um cenário que, em muitos momentos, se assemelha a um verdadeiro espetáculo de horror.

E então me pergunto: em que momento nos perdemos?
Quando foi que nos afastamos tanto da nossa própria humanidade?

A sensação que me atravessa, sempre que paro para olhar com mais atenção, é a de que fomos, de alguma forma, hipnotizados. Como se estivéssemos vivendo em estado de inércia coletiva.

Observo discursos, comportamentos, reações — e o que vejo é uma população, em grande parte, paralisada. Não por falta de informação, mas talvez por excesso dela, sem elaboração.

Recentemente assisti ao documentário O Dilema das Redes, na Netflix. O que mais me impactou não foram apenas as revelações, mas o tom dos próprios criadores das redes sociais: não havia orgulho, havia preocupação. Muitos deles se afastaram das próprias criações ao perceberem os efeitos colaterais que ajudaram a desencadear.

A chamada “engenharia da manipulação” tem avançado silenciosamente — e vencido. A atenção, hoje, tem dono. E quando a atenção é capturada, a capacidade crítica começa a se deteriorar.

Estamos assistindo a uma realidade em que notícias de feminicídio, estupro ou tentativas de violência extrema começam a ser recebidas com uma naturalidade assustadora. Como se o absurdo tivesse sido incorporado ao cotidiano.

Falamos muito. Agimos pouco.

A informação perdeu espaço para o espetáculo. O sofrimento virou conteúdo. A dor virou consumo.

E a psicoeducação — que poderia ser um caminho de transformação — vai sendo empurrada para as margens, porque não gera o mesmo impacto imediato que o choque, o escândalo ou a indignação momentânea.

O problema, muitas vezes, deixou de ser tratado como algo a ser compreendido e transformado, e passou a ser utilizado como produto. Não é o fato de cobrar pelo cuidado em saúde mental que me inquieta — isso é legítimo. O que causa estranhamento é a forma como esse cuidado vem sendo, em alguns contextos, esvaziado, acelerado e, por vezes, superficializado.

No meio de tudo isso, o que mais me preocupa não é apenas a violência em si, mas a normalização dela.

Porque quando o horror deixa de nos mobilizar, corremos o risco de perder não apenas a capacidade de reagir — mas a própria capacidade de sentir.


Um convite à consciência

Antes de seguir para a próxima tela, faça uma pausa.

Respire fundo e se pergunte, com honestidade:

  • O que, dentro de mim, ainda se incomoda com tudo isso?
  • Em quais momentos eu percebo que estou apenas assistindo, sem agir?
  • Que tipo de violência eu tenho normalizado — dentro ou fora de mim?

Agora, escreva.
Sem filtro, sem julgamento.

A consciência começa quando aquilo que estava difuso ganha nome.

E talvez o primeiro passo para romper qualquer anestesia seja esse:
voltar a sentir — e sustentar o que se sente.

quarta-feira, 25 de março de 2026

Lealdade familiar: o vínculo invisível que mantém o ciclo

 

A experiência de mulheres em situação de violência frequentemente é atravessada por uma pergunta silenciosa e dolorosa:

“Por que eu não consigo sair disso?”

Essa pergunta, muitas vezes carregada de culpa, revela não apenas uma situação atual, mas uma trama psíquica construída ao longo da história de vida. Para além das explicações superficiais, é fundamental compreender que muitos vínculos violentos se sustentam em padrões emocionais aprendidos e lealdades familiares inconscientes.

Este texto propõe um olhar ampliado: a mulher não permanece na violência por escolha consciente, mas porque, em muitos casos, seu sistema emocional foi estruturado dentro de referências onde o amor estava misturado com dor, silêncio ou abandono.

A construção do amor: o que se aprende na infância

O amor não é aprendido nos livros. Ele é aprendido dentro de casa.

É na convivência com os cuidadores que a criança constrói suas primeiras referências sobre:

  • o que é ser amado
  • o que é tolerável em uma relação
  • como lidar com conflitos
  • qual é o seu lugar dentro do vínculo

Quando esse ambiente é atravessado por violência, negligência ou instabilidade, a criança não interpreta isso como erro. Ela interpreta como normalidade.

Assim, forma-se um registro interno onde o amor pode incluir dor, medo ou submissão. Esse registro não é racional — é emocional, corporal e inconsciente.

Lealdade familiar: o vínculo invisível que mantém o ciclo

Toda família constrói, ainda que sem palavras, um sistema de valores, crenças e formas de amar. Dentro desse sistema, existe um impulso profundo de pertencimento.

Esse pertencimento pode gerar o que chamamos de lealdade invisível.

Na prática, isso significa que, inconscientemente, uma mulher pode:

  • repetir a história afetiva da mãe
  • tolerar o sofrimento que viu ser tolerado
  • permanecer em relações abusivas para não “romper” com o modelo familiar
  • sentir culpa ao tentar viver algo diferente

Essa lealdade não é consciente. Ela se manifesta como sensação de:

  • familiaridade com relações difíceis
  • dificuldade de sair, mesmo percebendo o sofrimento
  • medo de ficar só
  • dúvida constante sobre si mesma

É como se, internamente, houvesse uma pergunta não dita:
“Quem eu sou se eu não repetir essa história?”

Violência e vínculo: por que sair não é simples

A permanência em relações violentas não pode ser compreendida apenas pela lógica racional.

Ela envolve:

  • vínculo traumático (alternância entre dor e afeto)
  • baixa autoestima construída ao longo do tempo
  • normalização da violência
  • medo real ou simbólico de ruptura

Além disso, quando a história familiar já traz sofrimento semelhante, a relação violenta não parece completamente estranha — ela parece conhecida.

E o que é conhecido, mesmo que doloroso, pode ser sentido como mais seguro do que o desconhecido.

O corpo também participa dessa história

Experiências prolongadas de violência e estresse emocional podem impactar o corpo.

A ciência, especialmente através da psiconeuroimunologia, demonstra que o estresse crônico pode levar a:

  • alterações hormonais
  • inflamação persistente
  • aumento da sensibilidade à dor
  • desregulação do sistema imunológico

Condições como fibromialgia e doenças autoimunes, incluindo a tireoidite de Hashimoto, têm sido associadas, em diversos estudos, a históricos de estresse emocional intenso.

É fundamental compreender que isso não significa que a mulher “causou” a doença, mas que seu corpo participou de uma história que muitas vezes não pôde ser expressa.

O corpo, nesse sentido, pode tornar visível aquilo que foi silenciado.

Romper o ciclo: da lealdade à liberdade

Romper com padrões familiares não é um movimento simples, nem imediato. Trata-se de um processo que envolve consciência, elaboração emocional e reconstrução interna.

Alguns passos importantes incluem:

  1. Nomear a violência
    Reconhecer que determinadas experiências não são normais nem aceitáveis.
  2. Compreender a própria história
    Perceber que muitos padrões não começaram na própria vida, mas foram aprendidos.
  3. Elaborar a culpa
    Entender que viver diferente da família não é traição, mas transformação.
  4. Reconstruir a autoestima
    Retomar a percepção de valor e dignidade.
  5. Criar novos referenciais de amor
    Aprender, muitas vezes pela primeira vez, que relações podem ser seguras, respeitosas e recíprocas.

A mulher em situação de violência não está apenas diante de uma relação atual — ela está, muitas vezes, diante de uma história emocional que atravessa gerações.

A lealdade familiar, quando inconsciente, pode aprisionar. Mas quando se torna consciente, pode ser transformada.

Romper esse ciclo não significa negar a própria origem. Significa honrar a vida recebida, permitindo que ela siga em uma nova direção.

E, nesse movimento, algo profundamente potente acontece:
uma mulher que se liberta não transforma apenas a própria história — ela altera o curso de toda uma linhagem emocional.

domingo, 15 de março de 2026

Doenças autoimunes e saúde mental: quando o corpo entra em alerta e a mente pede regulação

 

momentos em que o corpo deixa de responder apenas ao presente e passa a carregar, em sua fisiologia, longos períodos de sobrecarga. Nas doenças autoimunes, esse fenômeno se torna ainda mais evidente: o sistema imunológico, cuja função natural é proteger o organismo, passa a reconhecer estruturas saudáveis como ameaça e desencadeia processos inflamatórios persistentes. Esse movimento biológico não acontece separado da vida emocional. Corpo e mente compartilham vias neuroquímicas, hormonais e nervosas que se influenciam mutuamente, razão pela qual saúde mental e doenças autoimunes caminham frequentemente lado a lado.

Entre os quadros mais frequentemente observados nessa relação estão a Tireoidite de Hashimoto, a Fibromialgia e o Lúpus Eritematoso Sistêmico. Embora cada uma apresente manifestações clínicas próprias, todas envolvem algum grau de desorganização do equilíbrio inflamatório e importante impacto sobre o sistema nervoso.

Na Tireoidite de Hashimoto, a agressão imunológica progressiva à glândula tireoide reduz a produção hormonal e compromete diretamente funções cerebrais relacionadas à energia, ao humor e à clareza mental. Não é raro que a pessoa apresente fadiga persistente, lentificação do pensamento, oscilação emocional, dificuldade de concentração e sensação de esgotamento que muitas vezes é inicialmente confundida com cansaço comum ou apenas tristeza prolongada.

Na fibromialgia, a dor difusa frequentemente se associa a uma sensibilização do sistema nervoso central. O cérebro passa a amplificar estímulos e a interpretar pequenos desconfortos como dor intensa. um estado de hipervigilância fisiológica em que o corpo permanece como se estivesse constantemente preparado para reagir. Essa condição frequentemente convive com alterações do sono, irritabilidade, exaustão e dificuldade de recuperação física, formando um ciclo em que dor e desgaste emocional se retroalimentam.

No lúpus, a inflamação sistêmica pode atingir múltiplos órgãos e gerar períodos de remissão e reativação. Essa imprevisibilidade clínica produz impacto psíquico importante, porque o organismo vive sob a tensão de não saber quando um novo episódio poderá surgir. A própria necessidade de monitoramento constante pode gerar ansiedade antecipatória, medo e sensação de perda de controle sobre o próprio corpo.

Neurofisiologia do estresse: por que o organismo não consegue desligar

Quando uma pessoa atravessa períodos prolongados de pressão emocional, o cérebro ativa mecanismos fisiológicos de sobrevivência. O eixo hipotálamo-hipófise-adrenal entra em funcionamento, levando à liberação de cortisol e adrenalina. Em situações agudas, isso é protetivo: aumenta atenção, acelera reflexos e prepara o corpo para reagir.

O problema surge quando esse sistema permanece acionado por tempo prolongado.

O excesso de cortisol altera o metabolismo inflamatório, interfere no equilíbrio imunológico, compromete neurotransmissores ligados ao humor e reduz a capacidade do organismo de retornar ao estado basal de segurança. O sistema nervoso simpático se mantém dominante: a respiração fica superficial, a musculatura permanece em tensão, o sono perde qualidade e o corpo passa a operar como se houvesse ameaça constante, mesmo em ambientes seguros.

Esse estado fisiológico ajuda a compreender por que tantas pessoas com doenças autoimunes relatam exaustão ao acordar, dificuldade de relaxar, dores persistentes, irritabilidade e sensação de mente acelerada.

Higiene do sono: parte do tratamento, não detalhe secundário

Dormir bem não é apenas descansar. Durante o sono profundo, ocorre reorganização neuroquímica, modulação imunológica, redução de mediadores inflamatórios e restauração metabólica. A privação ou fragmentação do sono aumenta ainda mais o cortisol, piora a dor, reduz tolerância emocional e enfraquece mecanismos naturais de reparação.

A higiene do sono torna-se, portanto, uma estratégia concreta de cuidado clínico.

Criar horários regulares para dormir, reduzir luz intensa no período noturno, evitar excesso de telas antes de deitar, diminuir estímulos mentais intensos e manter o ambiente escuro e silencioso são medidas que ajudam o cérebro a reconhecer segurança fisiológica.

Sono regular não resolve sozinho o adoecimento, mas sustenta parte importante da recuperação.

Uma prática simples para relaxar o nervo vago

O nervo vago é uma das principais vias do sistema parassimpático, responsável por desacelerar o organismo após períodos de alerta. Sua ativação melhora frequência cardíaca, respiração, digestão e sinaliza ao cérebro que o corpo pode sair do modo de vigilância.

Uma prática simples pode ser realizada diariamente:

Sente-se com os pés apoiados no chão. Inspire lentamente pelo nariz contando até quatro. Segure o ar por dois segundos e solte pela boca em seis tempos, prolongando a expiração. Durante a saída do ar, produza um som contínuo e suave, como “hummmmm”.

A vibração produzida auxilia a estimulação vagal, favorece desaceleração cardíaca e reduz a tensão corporal.

Cinco minutos por dia oferecem benefício fisiológico perceptível quando praticados com regularidade.

Corpo inflamado, mente em exaustão: por que é preciso olhar o conjunto

Doenças autoimunes não surgem por causa exclusiva do emocional, mas são fortemente influenciadas pela forma como o organismo lida com carga crônica de estresse, privação de recuperação e manutenção prolongada de alerta interno.

Por isso, o tratamento precisa ser ampliado: medicação, acompanhamento médico, regulação emocional, sono de qualidade, manejo do estresse e práticas de autocuidado não são dimensões separadas. São partes de um mesmo campo clínico.

Em muitos casos, cuidar da mente não significa apenas aliviar sofrimento subjetivo; significa também oferecer ao corpo condições reais de reorganização fisiológica.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Exaustão feminina: quando o corpo já não consegue sustentar o ritmo da sobrevivência

Nos últimos anos, uma queixa tem se tornado cada vez mais frequente na clínica: mulheres que chegam dizendo estar cansadas — mas não se trata de um cansaço comum.

Elas dormem e continuam exaustas.
Pausam e não se recuperam.
Tentam descansar, mas o corpo permanece em alerta.

Muitas descrevem a sensação de estar funcionando no limite há tempo demais, como se algo interno estivesse prestes a falhar. Frequentemente interpretam esse estado como fraqueza pessoal ou incapacidade de organização emocional.

Entretanto, o que chamamos de exaustão feminina raramente é falta de força. Na maioria das vezes, trata-se de um organismo submetido por longos períodos a níveis de estresse para os quais não foi biologicamente preparado.

O corpo humano não foi feito para o estresse contínuo

O sistema nervoso humano foi desenvolvido para responder a ameaças pontuais. Diante do perigo, o organismo ativa mecanismos de sobrevivência: aumento da frequência cardíaca, liberação de cortisol, tensão muscular e estado de vigilância.

Após o risco, o corpo deveria retornar ao equilíbrio.

O problema contemporâneo é que muitas mulheres vivem em estado permanente de ativação:

  • múltiplas jornadas de trabalho

  • responsabilidade emocional familiar

  • cuidado constante com outros

  • insegurança relacional

  • sobrecarga mental invisível

O perigo deixa de ser episódico e torna-se cotidiano.

O organismo, então, passa a operar como se nunca estivesse seguro.

Quando o cansaço deixa de ser apenas físico

Sob estresse prolongado, o sistema nervoso perde capacidade de autorregulação. Surgem sintomas frequentemente confundidos com ansiedade ou desmotivação:

  • dificuldade de concentração

  • irritabilidade constante

  • esquecimento

  • alterações no sono

  • dores corporais difusas

  • sensação de vazio ou apatia

O corpo economiza energia onde pode. Emoções tornam-se mais intensas ou, paradoxalmente, começam a desaparecer. Algumas mulheres relatam não sentir mais alegria, apenas funcionamento automático.

Não é desinteresse pela vida.
É exaustão neurobiológica.

A dimensão psíquica da sobrecarga

Do ponto de vista psicanalítico, muitas mulheres aprendem precocemente a sustentar o cuidado do outro antes do cuidado de si. Tornam-se organizadoras emocionais dos ambientes em que vivem, frequentemente silenciando necessidades próprias para manter vínculos e estruturas familiares.

O preço desse funcionamento aparece no corpo.

A exaustão surge quando o sujeito permanece por tempo prolongado ocupando posições que exigem adaptação constante sem espaço real de repouso psíquico.

O corpo, então, faz aquilo que a palavra ainda não conseguiu fazer: impõe limite.

Exaustão não se resolve apenas com força de vontade

Frases como “preciso ser mais forte” ou “tenho que dar conta” costumam aprofundar o desgaste. O sistema nervoso não responde a cobrança moral; responde a segurança, previsibilidade e descanso real.

Recuperar energia não significa abandonar responsabilidades, mas reconstruir pequenas experiências de regulação ao longo do dia.

O cuidado começa em movimentos possíveis.

Atividade de reconexão e pausa

Experimente, hoje, um exercício simples:

  1. Sente-se confortavelmente.

  2. Apoie ambos os pés no chão.

  3. Inspire lentamente pelo nariz contando até quatro.

  4. Expire pela boca contando até seis.

  5. Observe, por um minuto, qualquer ponto ao seu redor sem realizar outra tarefa.

Não é necessário “relaxar”. Apenas permitir que o corpo perceba, ainda que brevemente, ausência de ameaça.

Pequenas pausas repetidas ao longo do dia ensinam ao sistema nervoso que é seguro desacelerar.

A exaustão feminina não é sinal de incapacidade individual, mas frequentemente consequência de contextos prolongados de exigência emocional e física.

Escutar o próprio cansaço pode ser o primeiro gesto de reconstrução. O corpo não adoece para impedir a vida, mas para sinalizar que o modo de sobreviver precisa ser revisto.

Cuidar da saúde mental, muitas vezes, começa quando deixamos de perguntar apenas “como continuar” e passamos a perguntar “em que condições estou vivendo”.

O esgotamento emocional também pode estar relacionado ao funcionamento biológico do organismo.

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Quando o cérebro pede ajuda: a importância das vitaminas na saúde mental

Na clínica, é comum receber pessoas que chegam profundamente cansadas de tentar compreender o que está acontecendo consigo mesmas. Relatam dificuldade de concentração, irritabilidade, lapsos de memória, ansiedade persistente, desânimo e uma sensação constante de esgotamento emocional. Muitas já passaram por diferentes tentativas de explicação para o sofrimento que vivem, frequentemente atribuindo tudo exclusivamente ao campo psicológico.

Entretanto, antes de compreendermos o sofrimento apenas como expressão emocional, é necessário lembrar que o cérebro é um órgão vivo, dependente de condições biológicas mínimas para funcionar adequadamente. Pensar, sentir, regular emoções e sustentar decisões exige energia metabólica real.

Nem sempre o sofrimento começa na história. Às vezes, começa na falta.

O cérebro também se nutre

O funcionamento cerebral depende diretamente de nutrientes responsáveis pela produção de neurotransmissores, pela comunicação neuronal e pela regulação do humor.

Vitaminas e minerais participam de processos fundamentais como:

  • produção de serotonina e dopamina

  • regulação do sono

  • memória e atenção

  • controle da ansiedade

  • estabilidade emocional

Deficiências nutricionais podem produzir sintomas frequentemente confundidos com transtornos emocionais, entre eles:

  • fadiga persistente

  • desmotivação

  • irritabilidade

  • dificuldade de raciocínio

  • sensação de confusão mental

  • aumento da ansiedade

Entre os nutrientes mais frequentemente associados à saúde mental encontram-se a vitamina B12, vitamina D, ferro, magnésio e ômega-3. Quando em níveis inadequados, o organismo passa a operar em estado de economia energética, e o cérebro reduz funções consideradas não essenciais à sobrevivência imediata — entre elas, a capacidade de concentração e regulação emocional.

O sujeito não perde força de vontade. O corpo está tentando sobreviver.

Quando o sofrimento é interpretado como falha pessoal

Muitas pessoas chegam à clínica acreditando que estão fracassando emocionalmente. Sentem culpa por não conseguir produzir, organizar a rotina ou sustentar o mesmo ritmo de antes.

A psicanálise nos ensina que o sofrimento psíquico possui múltiplas determinações. Ignorar o corpo pode levar à interpretação equivocada de sintomas que possuem também base orgânica.

Não se trata de reduzir a experiência humana à biologia, mas de reconhecer que mente e corpo não funcionam separadamente. Um organismo privado de nutrientes essenciais encontra maior dificuldade para elaborar conflitos, sustentar frustrações e regular afetos.

Antes de exigir adaptação emocional, é necessário investigar as condições físicas que sustentam essa adaptação.

A clínica ampliada como cuidado

Por essa razão, o cuidado em saúde mental frequentemente envolve diálogo com outros profissionais. Avaliações laboratoriais, acompanhamento nutricional e orientação médica não substituem o processo terapêutico — mas podem criar as condições necessárias para que ele aconteça de forma mais efetiva.

Não se faz elaboração psíquica em um organismo exaurido.

Quando o corpo encontra equilíbrio, o pensamento torna-se novamente possível.

Atividade de percepção corporal

Reserve alguns minutos e observe:

  • Como está sua energia ao longo do dia?

  • Seu cansaço melhora após descanso?

  • Há lapsos frequentes de memória ou atenção?

  • Seu humor mudou nos últimos meses sem motivo claro?

  • Você realizou exames laboratoriais recentemente?

Essa não é uma lista diagnóstica, mas um convite à escuta do próprio corpo.

Cuidar da saúde mental também implica perguntar se o organismo possui os recursos necessários para sustentar a vida cotidiana.

O sofrimento humano não precisa ser explicado por uma única via. Em muitos momentos, compreender o que sentimos exige olhar simultaneamente para história, relações e funcionamento corporal.

Buscar investigação adequada não invalida a experiência emocional — ao contrário, amplia o cuidado.

Às vezes, o primeiro gesto de saúde mental é reconhecer que o cérebro também precisa ser nutrido para continuar pensando, sentindo e vivendo.

O cansaço persistente nem sempre está ligado apenas à nutrição. Muitas mulheres vivem estados prolongados de exaustão física e emocional.

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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Quando o sofrimento não está apenas na mente: a importância de olhar o corpo na clínica psicológica/psicanalítica

 

Quando uma vítima chega aos meus cuidados, procuro realizar uma avaliação global dessa paciente. Muitas pessoas perguntam por que solicito alguns exames se não sou médica. A resposta é simples: não trabalho sozinha. Minha prática clínica acontece em articulação com neurologista, psiquiatra e nutricionista, porque não acredito que um único olhar seja suficiente diante da complexidade humana.

Importante? Sem dúvida.
Suficiente? Precisamos pensar sobre isso.

O sofrimento psíquico raramente pertence a uma única dimensão da existência. Corpo, história emocional, ambiente social e funcionamento neurobiológico caminham juntos. Ignorar qualquer uma dessas partes pode significar tratar apenas o sintoma visível enquanto a causa permanece ativa.

Em um dos meus plantões noturnos, certa de que seria uma noite tranquila, surgiu uma situação que reafirmou profundamente essa compreensão. O plantão era online quando recebi uma chamada de vídeo diretamente de um hospital. Do outro lado da tela estava uma paciente confusa, agitada, com fala desorganizada e já sob condução psiquiátrica emergencial.

Graças à escuta aberta do médico de plantão — um profissional sensível à abordagem integrativa — foi possível ampliar a investigação clínica. Aquilo que inicialmente caminhava para uma intervenção exclusivamente psiquiátrica tomou outro rumo. A hipótese medicamentosa mudou. Saímos de uma condução baseada apenas em psicotrópicos para a investigação hormonal.

O diagnóstico posterior confirmou uma alteração tireoidiana significativa.

Costumo dizer que não se faz terapia com o “prédio em chamas”. Utilizo essa expressão quando percebemos que a aparente desorganização psíquica está associada a disfunções orgânicas ativas. Antes de interpretar conflitos, é necessário garantir condições mínimas de estabilidade para que o sujeito possa pensar, sentir e elaborar.

Muitas vezes, esses pacientes chegam primeiro ao consultório psicológico. E isso acontece porque o sofrimento inicial é vivido como emocional. A pessoa relata ansiedade intensa, aceleração interna, insônia, irritabilidade ou sensação de perda de controle. Culturalmente, aprendemos a nomear esses estados como problemas psicológicos. Entretanto, em alguns casos, o organismo encontra-se biologicamente hiperativado.

Alterações hormonais — especialmente as relacionadas à tireoide — podem produzir agitação, taquicardia, sensação de calor intenso, pensamento acelerado e confusão mental, quadros frequentemente confundidos com crises de ansiedade, síndrome do pânico ou até surtos psiquiátricos.

O ponto fundamental é compreender que o hormônio não cria conflitos emocionais novos. Ele altera a capacidade do aparelho psíquico de lidar com aquilo que já existe.

Quando há desregulação hormonal, o cérebro entra em estado de hiperexcitação. O limiar de tolerância emocional diminui, o sono se fragmenta e o pensamento perde capacidade organizadora. Aquilo que antes era suportável torna-se insuportável. Antigas dores emocionais emergem com intensidade ampliada, não porque surgiram naquele momento, mas porque o organismo perdeu temporariamente a capacidade de regulá-las.

Do ponto de vista psicanalítico, poderíamos dizer que o ego perde parte de sua função de contenção. O sujeito passa a sentir antes de conseguir pensar sobre o que sente.

É por isso que, em determinadas situações, interpretar conflitos profundos durante uma descompensação orgânica pode aumentar ainda mais a angústia. Primeiro estabilizamos o corpo. Depois, o pensamento retorna. E somente então o trabalho analítico encontra terreno fértil.

Quando o equilíbrio hormonal é restabelecido, algo muito interessante acontece: o paciente frequentemente relata que voltou a conseguir pensar com clareza. Não se trata apenas de melhora física, mas da recuperação da capacidade simbólica — condição essencial para qualquer processo terapêutico consistente.

A clínica me ensinou que nem todo sofrimento que parece psicológico nasce exclusivamente na psique. Assim como nenhuma alteração orgânica deixa de atravessar a experiência emocional do sujeito.

Por isso, a escuta clínica precisa ser refinada. É necessário observar incoerências, perceber quando narrativa, corpo e comportamento não convergem e ter humildade suficiente para ampliar o cuidado.

Cuidar de alguém é, muitas vezes, reconhecer que mente e corpo não competem entre si. Eles se sustentam mutuamente.

E, antes de ajudar alguém a reorganizar sua história, precisamos garantir que o chão onde essa história será reconstruída esteja seguro o bastante para não desabar novamente.

Quando começamos a escutar o corpo, muitas vezes precisamos revisitar os vínculos que sustentamos. Talvez esse texto converse com você: Por que mulheres permanecem em relações violentas? A resposta está no cérebro e no apego.